
Orientações para pacientes e familiares
As informações destinadas a pacientes e seus familiares foram traduzidas do site www.neurosymptoms.org por Bruna Bartorelli mediante autorização de seu organizador, Professor Jon Stone, neurologista especialista em transtornos neurológicos funcionais da Universidade de Edimburgo, Escócia.
Fraqueza Funcional / Déficit Motor Funcional
O que é a fraqueza funcional de um membro?
É um déficit de uma perna ou um braço, pelo fato de o sistema nervoso não estar funcionando adequadamente sem que haja lesão ou doença do sistema nervoso.
Doentes com fraqueza funcional referem sintomas de défice de força num membro, a qual pode ser incapacitante e interferir com a marcha, ou por vezes, podem sentir ‘peso’ de um lado do corpo, deixar cair objetos ou sentir o membro como anormal ou ‘estranho ao próprio corpo’.
Para o paciente ou para o médico, as queixas podem ser parecidas aos sintomas de um acidente vascular cerebral ou esclerose múltipla. No entanto, ao contrário do que se passa nesses casos, no déficit de etiologia funcional não há dano permanente no sistema nervoso, o que significa que o sintoma pode melhorar ou desaparecer completamente.
Como é diagnosticado o déficit motor funcional de um membro?
O diagnóstico de déficit funcional geralmente é feito por um neurologista ou especialista em doenças vasculares cerebrais.
Pacientes com déficit motor funcional têm exames de imagem e outros (como laboratoriais) normais. Quando são examinados, o médico encontra sinais no exame objetivo típicos dessas perturbações funcionais e não vê achados correlacionáveis a uma doença neurológica estrutural (por exemplo, um acidente vascular cerebral).
Isso acontece porque num déficit motor funcional todas as estruturas do sistema nervoso estão intactas, apenas não estão funcionando corretamente quando o paciente tenta mover um braço ou uma perna.
O seu médico deve ser capaz de identificar sinais físicos de transtorno funcional no exame objetivo e, assim, fazer o diagnóstico da mesma forma que em outras doenças, como, por exemplo, a enxaqueca (em que também não há um teste “confirmatório” de diagnóstico).
Se os pacientes fossem computadores, poderíamos fazer a analogia de que o software está quebrado, sem que haja um problema no hardware.
Outros sinais de Déficit Motor Funcional
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Queda do membro (‘give-away’ sign)
Tendência para que o braço ou a perna examinados “colapsem” quando são testados, o que pode ser interpretado pelo médico como uma ausência de tentativa de movimento por parte dos pacientes. Estes geralmente sentem que a fraqueza motora agrava à medida que tentam mexer o membro.
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Marcha que arrasta o pé
Pacientes com déficit motor funcional por vezes têm um caminhar característico em que os membros inferiores afetados se “arrastam” no solo. Esse padrão de marcha é diferente do que ocorre após um acidente vascular cerebral (AVC) ou esclerose múltipla, quando os pacientes são capazes de manter ortostatismo.
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Uma diferença entre a força muscular no leito e durante a marcha
Algumas pessoas com déficit motor funcional têm um exame da força muscular relativamente normal quando estão deitadas, mas apresentam déficit motor dos membros quando caminham. O inverso também poderá ser verificado. Essa observação não se deve ao fato de os pacientes não tentarem caminhar corretamente, mas, sim, à variabilidade do quadro, que é uma característica dos transtornos funcionais.
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Sinal de Hoover’s sign
Neste teste, a sua perna afetada demonstra dificuldade em se mover quando tenta empurrar esse membro contra a cama, no entanto, quando lhe é pedido para levantar a perna oposta, a força muscular do lado afetado aparece . Esse sinal pode ser usado como estratégia de encorajamento em sessões de fisioterapia no membro afetado (e ajuda a demonstrar ao paciente que o diagnóstico de transtorno funcional está correto).
Sinal de Hoover é um sinal positivo de déficit motor funcional
Pacientes com déficit motor funcional do membro inferior por vezes têm uma marcha típica, em que o membro inferior afetado fica para trás.
O vídeo de sinal de Hoover demonstra que a Lucy tem déficit motor na sua perna direita. Quando ela tenta empurrá-la em direção ao solo, não consegue.
Mas quando se pede à Lucy para levantar a perna esquerda normalmente e fixar esse membro no ar, observa-se que a fraqueza da perna direita é revertida temporariamente.
A explicação para isso é que, quando a Lucy tenta mover a perna direita, esta não responde ao que é pedido por um problema na função cerebral e no sistema nervoso. Mas quando se foca na perna esquerda, os movimentos automáticos retornam, ficando, assim, provado que o déficit motor não é consequência de uma lesão estrutural.
Como surgem os déficits motores funcionais?
Déficit motor funcional é um problema complexo. Ele surge por diversos motivos em diferentes pessoas. Em geral, os sintomas são acompanhados de frustração, preocupação e humor depressivo, mas estes não são em si a causa do problema.
São reconhecidas diferentes situações que propiciam o aparecimento de déficit motor funcional. Os seus sintomas podem se enquadrar numa das seguintes categorias, embora nenhuma delas possa ser relevante para você:
1. Depois de uma lesão/com dor: Determinadas pessoas parecem particularmente vulneráveis ao déficit funcional depois de uma lesão ou quando sentem dor nesse membro (particularmente dor severa cervical ou no dorso). Há uma outra condição chamada Síndrome da dor complexa regional (clique no link para descobrir mais).
2. Uma doença com muita fadiga ou repouso no leito: Sintomas de fraqueza podem se desenvolver em pacientes que sofrem de fadiga ou exaustão. Em alguns pacientes, demasiado repouso pode provocar os sintomas. Essa situação pode se desenvolver em sobreposição com sobreposição da dor complexa regional (clique no link para descobrir mais).
3. Acordar da anestesia após uma cirurgia ou do sono: Essa situação não é causada por um efeito do anestésico, mas por um estado cerebral alterado temporariamente. Situações parecidas às vezes ocorrem depois de acordar, mesmo sem o efeito anestésico
4. Após um episódio de dissociação/ ataque de pânico: Se o déficit motor surgir subitamente, pode estar associado a outros sintomas, tais como tonturas e dissociação (um sentimento que as coisas ao seu redor estão distantes ou desconectadas). Dissociação é um pouco como um estado de “transe”. Por vezes, esses episódios são aflitivos, especialmente se surgirem subitamente, e podem levar a um ataque de pânico. Assim que o ataque de pânico passa, pode deixar uma sensação de que o corpo não está “normal”, talvez mais pesado ou com dormência. Há vezes em que os sintomas surgem após uma crise dissociativa (clique aqui).
5. Sem precipitante óbvio: Pode não haver precipitante óbvio, tal como nos casos de enxaqueca que surgem apenas após fadiga ou estresse, enquanto alguns episódios aparecem sem causa aparente.