Orientações para pacientes e familiares

 As informações destinadas a pacientes e seus familiares foram traduzidas do site www.neurosymptoms.org por Bruna Bartorelli mediante autorização de seu organizador, Professor Jon Stone, neurologista especialista em transtornos neurológicos funcionais da Universidade de Edimburgo, Escócia.

Mioclonia Funcional

Elas são movimentos súbitos bruscos ou semelhantes a choques e fazem parte de um transtorno funcional do movimento. A mioclonia é um sintoma encontrado em muitos transtornos neurológicos, assim como em pessoas saudáveis.

A maioria das pessoas já teve a experiência de pular ou sacudir um membro quando estão dormindo. Esses movimentos são chamados de “mioclonias do adormecer”. Muita gente também está familiarizada com “tremores” aleatórios que algumas pessoas têm. A mioclonia do adormecer ou o tremor do corpo ocasional são normais, mas na mioclonia funcional eles se tornam um problema frequente e incapacitante.

Pode haver sacudidelas dos braços ou pernas ou, o que é muito comum, no corpo. Os movimentos não podem ser controlados (ou seja, são involuntários).

Como isso começou?

A mioclonia funcional geralmente surge repentinamente (em cerca de dois terços dos casos), mas pode vir também de forma gradual. Ela afeta pacientes um pouco mais tardiamente do que alguns dos outros sintomas descritos neste site. Por exemplo, de 35 pacientes, a idade média de aparecimento foi de 45 anos. Pode ser causada por uma das seguintes situações:

 

1. Uma lesão física. A mioclonia funcional pode ocorrer como parte da síndrome de dor regional complexa. As contrações no tronco geralmente vêm acompanhadas de dor nas costas.

2. Após desenvolver mioclonias secundárias por causa de um problema médico, como

a. um efeito colateral de um medicamento

b. uma infecção

c. um período de internação em UTIs

 

3. Depois de um “susto” ou um ataque de pânico

4. Com um sintoma chamado “dissociação” (sentir-se aéreo ou de fora), que pode acontecer sem qualquer sentimento de medo

5. Uma causa subjacente adicional leve de mioclonia que foi “amplificada” devido à mioclonia funcional.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de mioclonia funcional geralmente é feito por um neurologista. Pode ser um diagnóstico difícil, porque requer conhecimento especializado de vários transtornos neurológicos, muitos dos quais são raros.

A seguir, alguns exemplos do que um neurologista procura investigar com o intuito de diagnosticar uma mioclonia funcional:

1. Abalos do tronco (ou seja, corpo) em vez de nas pernas

2. Início súbito, sem outra causa óbvia de doença

3. Envolvimento do rosto e/ou voz

4. Flexões do tronco ao caminhar

5. Abalos que podem ser suprimidos ou retardados pelo paciente usando técnicas de distração

6. Em alguns casos, a investigação pode ser complementada por um “EEG jerk-locked back averaging”. Esse exame busca mudanças na onda cerebral (EEG) que normalmente precedem o abalo em pacientes com mioclonia funcional. Isso é chamado de potencial de Bereitschafts (BP). Esse exame é mais uma ferramenta de pesquisa do que um teste de rotina. A figura abaixo mostra um BP num paciente com mioclonia funcional.

Mais de metade dos pacientes com mioclonia funcional descreve sintomas de alerta antes de alguns dos seus abalos, que podem durar apenas alguns segundos ou até minutos. Alguns pacientes descrevem uma crescente sensação de tensão que, de alguma forma, é aliviada temporariamente após o movimento. Saber isso pode ser importante para o tratamento. No entanto isso não se aplica a todos os pacientes com mioclonia funcional.


Consulte a página sobre Tratamento, mas veja aqui alguns pontos específicos.

Qual é o tratamento?



 

Você confia no diagnóstico?

É essencial que você acredite que o seu diagnóstico está correto. Senão, será difícil colocar em prática as técnicas de reabilitação sugeridas.

A mioclonia funcional costuma ser mais perceptível quando as pessoas estão relaxadas ou não pensam em nada em particular. Você não acreditou no diagnóstico porque o seu médico sugeriu que a condição está relacionada com o estresse? Nesse caso, pode ter havido um mal entendido.

Sabemos que muitos pacientes com mioclonia funcional têm um fator de estresse como causa dos seus sintomas, mas muitos outros não. Então isso não é relevante para o diagnóstico.

Técnicas específicas

O tratamento da mioclonia funcional é bastante desafiador. Normalmente, o problema já vem se arrastando há algum tempo e acabou se tornando um “hábito” para o cérebro. Pode valer a pena considerar o seguinte:

1. Se notar os sintomas de alerta, tente usar técnicas de distração para ver se consegue evitar os abalos. As mesmas técnicas descritas para crises dissociativas podem ser úteis. Alguns pacientes relatam que, quando fazem isso, são bem-sucedidos, mas depois têm um tranco ou uma série de sacudidelas que são ainda piores imediatamente após. Mas continue se empenhando para tentar “quebrar o hábito”.

2. Há algum determinado momento em que você já está esperando ter os movimentos (por exemplo, quando você se deita à noite para dormir ou está em um lugar público)? A forma como o cérebro funciona é que, às vezes, se você realmente espera que algo aconteça, vai acontecer, mesmo que você não queira. Isso é chamado de “resposta condicionada” e é algo bem compreendido pelos psicólogos.

3. A medicação muitas vezes é frustrante na mioclonia funcional. A maioria dos pacientes já experimentou medicamentos como o clonazepam, mas sem sucesso.

4. Às vezes, sob hipnose, abalos e chacoalhões podem melhorar e suas técnicas podem ser praticadas em casa.

Infelizmente, muitos pacientes com mioclonia funcional acham que esse é um problema que persiste. Mas vale a pena tentar melhorá-lo.

Curiosidade

Uma nota sobre contrações musculares benignas: algumas vezes são chamadas de “fasciculações benignas”.

Fasciculações benignas geralmente não são consideradas um transtorno funcional, mas elas são benignas, causam preocupação e podem coexistir com alguns dos outros sintomas descritos neste site, por isso elas são mencionadas aqui.

A maioria das pessoas tem pequenos espasmos de vez em quando, especialmente ao redor dos olhos e nos dedos. Tal contração é tão comum que vivenciá-la ocasionalmente é normal. No entanto em algumas pessoas essa contração muscular está presente em várias regiões do corpo durante a maior parte do tempo. Isso pode levar a uma ansiedade compreensível sobre a causa dos sintomas, o que, por sua vez, agrava a contração.

Sabe-se que espasmos benignos generalizados como esses ocorrem com mais frequência em estudantes de medicina e médicos que, ao desenvolverem esses sintomas, ficam preocupados com a possibilidade de terem doenças do neurônio motor (conhecidas como ELA).

De fato, a contração observada nesse transtorno funcional, que afeta toda a fibra muscular, é diferente dos movimentos menores, denominados fasciculações, vistos na doença do neurônio motor. A condição é, portanto, um pouco erroneamente chamada de fasciculação benigna. Existem outras causas de espasmos musculares generalizados, mas a fasciculação benigna continua a ser a mais comum na prática clínica.

Tal como acontece com os sintomas funcionais, saber qual é o problema pode te ajudar a resolvê-lo espontaneamente.

Este é um artigo escrito por um médico que experimentou fasciculações benignas e transtorno ansioso por doença que posteriormente sarou com o tratamento.