
Orientações para pacientes e familiares
As informações destinadas a pacientes e seus familiares foram traduzidas do site www.neurosymptoms.org por Bruna Bartorelli mediante autorização de seu organizador, Professor Jon Stone, neurologista especialista em transtornos neurológicos funcionais da Universidade de Edimburgo, Escócia.
Quedas súbitas
Uma “queda súbita” é o termo médico para uma queda repentina no solo sem que haja um óbvio “apagão”. Ela surge durante o caminhar ou em pé e sem qualquer aviso prévio. Essas quedas podem ser assustadoras e muitas vezes levam a lesões, especialmente nos joelhos, antebraços e no rosto.
Existem muitas causas para elas ocorrerem, como pressão arterial baixa e epilepsia, mas muitas vezes, especialmente em pessoas com menos de 65 anos, verifica-se que são um tipo de sintoma neurológico funcional. Por vezes, correspondem a uma forma de dissociação muito breve (ataque não epiléptico).
Antes de ler esta página, por favor, verifique com seu médico que a informação aqui exposta seja relevante para você. Se tiver um diagnóstico de “ataques de queda idiopáticos” ou “ataques de queda criptogênicos”, as informações aqui podem ser relevantes. Se as suas quedas tiverem uma causa conhecida, como um problema cardíaco ou epilepsia, então esta página não é indicada para o seu caso.
Quais são as características típicas das quedas súbitas?
Mais de 90% delas, por razões ainda pouco compreendidas, ocorrem em mulheres, embora os homens também possam desenvolver esse problema. A idade média de aparecimento é entre 45 e 55 anos, um pouco mais tarde do que os outros sintomas descritos neste site, no entanto pode aparecer em qualquer idade.
Pacientes com quedas súbitas frequentemente apresentam os seguintes sintomas:
1. “Eu estava apenas caminhando e pensando na minha vida.” São quedas repentinas enquanto a pessoa está em pé ou caminhando.
2. “Não havia razão para isso.” Geralmente, não há um gatilho específico para a queda, embora alguns pacientes relatem que elas são mais prováveis em determinadas situações, especialmente no topo de escadas e em locais movimentados, como supermercados. Isso pode ter algo a ver com a “sobrecarga sensorial” que algumas pessoas enfrentam nessas situações (leia mais sobre isso abaixo).
3. “Num minuto eu estava andando e no seguinte estava no chão. Eu não acho que tenha desmaiado.” Os pacientes com ataques de queda funcional normalmente não conseguem se lembrar da queda em si, mas estão cientes do impacto no solo (ou dos segundos após a queda). Isso é diferente de uma queda mecânica, quando as pessoas geralmente se lembram dela (geralmente em detalhes). É também diferente de um ataque dissociativo (ataque não epiléptico), quando há um “apagão” real.
4. “Eu consegui voltar bem rápido.” Ao contrário de um ataque epiléptico, as pessoas que sofrem dessas quedas súbitas geralmente podem se levantar muito rapidamente.
5. “Eu continuo me machucando.” Lesões são uma consequência comum em ataques de queda. Na França, essa condição tem sido chamada de “maladies de genoux bleus” (doença dos joelhos roxos) porque os pacientes que sofrem com elas muitas vezes caem de joelhos, se machucando no tombo. Outras lesões comuns ocorrem no punho e nas mãos, bem como no rosto. Quando esses ataques de queda têm testemunhas, é frequentemente notado que a pessoa simplesmente cai no chão em vez de tombar (como em um desmaio).
6. “Essas quedas me deixam apreensivo e com receio de sair de casa.” É natural quando a pessoa teve algumas quedas inesperadas que comece a ter receio de sair. Não só cair tão inesperadamente pode machucar como muitos pacientes relatam constrangimento, especialmente quando os outros vêm ajudar. Como acontece com qualquer outra causa de “ataque súbito”, quem sofre com ataques de queda geralmente desenvolve o medo de sair sozinho. Isso é importante de ser reconhecido para ajudar no tratamento.
Como os ataques súbitos de queda são diagnosticados?
Ataques súbitos de queda são um problema muito característico quando os pacientes procuram o médico. Se alguém tem todos os elementos descritos acima, então é realmente muito improvável que haja outra causa, como epilepsia ou uma doença cardíaca.
Em pessoas idosas, os ataques de queda podem acontecer devido à redução súbita da pressão arterial. Os médicos às vezes usam os termos síncope, síncope vasovagal ou hipersensibilidade do seio carotídeo para descrever vários tipos de desmaios relacionados com a pressão baixa.
Um traçado eletrocardiográfico (ECG) e um registro cardíaco mais longo (Holter de 24 horas, por exemplo) podem ser úteis para tentar detectar um dos episódios. Se não há outra forma de epilepsia concomitante, é extremamente incomum que ataques de queda isolados sejam causados por epilepsia.
Às vezes, ataques de queda acontecem por conta de instabilidade do joelho ou dos quadris ou porque a pessoa continua tropeçando, embora geralmente nesses casos a pessoa se recorde da queda, muitas vezes com uma lembrança de tudo o que aconteceu em câmara lenta.
Será que posso me machucar gravemente?
As lesões são parte integrante destes ataques de queda. Estas podem ser graves ao ponto de causar fraturas ósseas ou dentárias, mas lesões mais graves ou que coloquem em risco a vida não são comuns nos ataques de queda funcionais, mesmo em pessoas com vários ataques por dia. Isso é diferente da epilepsia ou até dos desmaios onde as lesões sérias às vezes acontecem. Isto está relacionado com a natureza dos ataques de queda não relacionados a uma verdadeira perda de consciência na qual o corpo está completamente desprotegido. É útil pensar nisso como uma perda de CONSCIÊNCIA, onde o corpo está parcialmente protegido. Isso explica por que as pessoas com ataques de queda tendem a amassar, em vez de cair, e às vezes (mas nem sempre) conseguem evitar móveis e outros obstáculos ao cair.
Por que os ataques súbitos de queda surgem?
Para obter informações gerais sobre como e por que motivo os sintomas funcionais surgem, consulte as respectivas páginas.
Ainda há muita coisa que não entendemos sobre os ataques de queda. Em algumas pessoas, eles de fato são “criptogênicos” ou idiopáticos (ou seja, os médicos realmente não têm ideia do motivo pelo qual eles acontecem e não há evidências claras de que também sejam funcionais).
Mas em outras pessoas é possível ver um padrão que se encaixa bem naqueles observados em outros transtornos funcionais. Algumas evidências para isso incluem as seguintes:
• Alguns pacientes com ataques conversivos (não epilépticos) podem desenvolver ataques de queda conforme forem melhorando ou às vezes ataques de queda se transformam em ataques conversivos (não epilépticos). Por exemplo, veja a história de Mary neste site.
• Algumas pessoas com fraqueza funcional dos membros têm ataques de queda que são desencadeados pela perna que normalmente é fraca, “cedendo”. Embora possam ser descritos apenas como quedas, é frequente que a pessoa sinta uma ligeira fraqueza e a próxima coisa que ela percebe é que está no chão depois de ter caído. Esse é mais um “ataque de queda”.
• Muitas pessoas com ataques de queda se sentem estranhas quando recuperam a consciência. Às vezes, esse é um sentimento de “o mundo não existe”, que é chamado de dissociação (veja a página Sintomas dissociativos para mais descrição). Em algumas pessoas isso é um indício de que a dissociação é a razão para o ataque de queda em primeiro lugar.
• Algumas pessoas com ataques de queda só os têm quando estão fora de casa. Se eles ocorressem por causa de um problema cardíaco ou epilepsia, aconteceriam aleatoriamente.
• Trabalhar com esse modelo “funcional” de ataques de queda também pode levar a um tratamento bem-sucedido em alguns pacientes, embora os ataques de queda geralmente sejam um problema difícil de ser tratado.
Eis exemplos de eventos que podem levar a ataques de queda funcionais:
1. A pessoa sofre uma simples queda ou desmaia, mas tem um susto ou choque que cria uma sensibilidade a quedas no futuro.
2. Um ataque aleatório de dissociação em pé ou caminhando ou um que tenha sido desencadeado por alguma sensação leve de fraqueza leva a uma segunda queda, desta vez uma queda súbita funcional – isso leva a um susto ou choque ainda maior.
3. O corpo e o sistema nervoso da pessoa estão agora “preparados”, em termos de neurociência, para ter quedas sem nenhum gatilho. Cada episódio subsequente tende a reforçar o “hábito” que o sistema nervoso deles tem, tipicamente sem nenhum gatilho. Como com todos os sintomas e transtornos funcionais, os ataques de queda são genuínos e não são causados pela pessoa (ela não cai deliberadamente).
4. A pessoa com ataques de queda desenvolve, naturalmente, o medo de mais quedas, o que, em si, parece torná-las mais prováveis. Não é que a pessoa tenha medo de cair o tempo todo, mas o fato de se preocupar com as quedas e as consequências delas parece fazer com que os ataques de queda provavelmente aconteçam, pelo menos em algumas pessoas.
5. Algumas pessoas com ataques de queda dizem que têm dias em que sentem que uma queda é mais provável de acontecer, elas simplesmente não sabem quando. Ter a queda é horrível, mas depois sentem que estão muito menos propensas a ter outra naquele mesmo dia ou mesma semana.
Como é o tratamento
1. Compreender o diagnóstico
Como com todos os sintomas e transtornos funcionais, entender a natureza do diagnóstico é um primeiro passo importante. É difícil ter ataques de queda funcionais sem estar preocupado com a possibilidade de ter epilepsia ou problemas cardíacos. Ficar preocupado com essas coisas também pode piorar o transtorno.
Entender que os ataques de queda são um problema clínico muito típico que um médico experiente pode reconhecer imediatamente parece ser um bom começo.
2. Tente reconhecer os sintomas de aviso
A maioria das pessoas com ataques de queda não apresenta sintomas de alerta ou, se o tiverem, será apenas nos primeiros ataques. Ocasionalmente, os pacientes podem aprender a reconhecer sintomas de alerta, seja de dissociação ou sintomas que sugerem que o corpo está entrando em “alerta vermelho”, como palpitações ou ficar quente. Se notar alguns sintomas de alerta, mesmo que durem apenas alguns segundos, isso é algo que poderá ajudar a evitar quedas usando técnicas de distração. Esse é o mesmo tipo de conselho de tratamento dado para pacientes com crises conversivas (não epilépticos).
Existem situações específicas em que ocorrem ataques de queda?
Uma minoria de pacientes relata ter apenas ataques de queda quando estão fora de casa, da mesma forma que pessoas com ataques de pânico tendem a tê-los apenas quando estão longe da segurança de sua casa.
Se não tiver nenhum sintoma de aviso
Assim como nos ataques dissociativos, embora o paciente não tenha nenhum sintoma de alerta, os que estão ao seu redor, como amigos e familiares, às vezes percebem algumas mudanças antes, que incluem “ficar quieto” ou parecer “alheios”, como se estivessem “desligados” ou “não estivessem lá”. Se os seus amigos e familiares puderem identificar esse tipo de sintoma dissociativo, peça-lhes que te informem, pois isso pode te ajudar a reconhecer o sinal de alerta de dissociação que está à procura.
Soa um pouco estranho, mas em alguns casos parece que quando as pessoas dissociam, elas também se dissociam da sensação de estarem alheias quando isso acontece! Então elas precisam de um feedback para aprender a reconhecer esse sentimento.
Quando nenhuma das situações acima se aplica
Na maioria dos pacientes com ataques de queda, não há sintomas de alerta, eles não podem ser encontrados mesmo se procurados, os ataques acontecem em qualquer lugar, incluindo em casa, e então parece que não há nenhum “caminho” para o tratamento. Este é frequentemente o caso, mesmo quando o paciente aceita e compreende totalmente o diagnóstico. As abordagens de tratamento que valem a pena considerar incluem:
Medicação
Alguns dos medicamentos descritos no tratamento – página de medicação pode valer a pena tentar ler – amitriptilina e clomipramina. Eles às vezes são usados para tratar outro tipo de quedas chamado cataplexia e há relatos de sucesso.
Tratamentos com base na psicoterapia
Se os seus ataques de queda estiverem interferindo muito na sua vida, pode ser que você esteja entrando num círculo vicioso, pelo qual a constante preocupação de quando o próximo ataque será e quais as lesões que você terá a seguir estão piorando e perpetuando o problema. Falar abertamente sobre isso com um médico ou psicólogo às vezes pode ser bom. Um psicólogo pode usar uma abordagem semelhante à usada para ataques de pânico, embora os transtornos sejam diferentes. Isso pode envolver fazer coisas como experimentar gradualmente sair sozinho ou aprender como evitar sentimentos de constrangimento e aceitar ajuda se cair num lugar público, superando assim os seus receios sobre ferimentos graves e verificando se esses medos são realistas.
Mesmo depois de tentar essas coisas, algumas pessoas com ataques de queda ainda continuam com o problema. Podem existir fatores sobre os ataques que ainda não entendemos. Ou em algumas pessoas pode ser que isso se torne um “hábito” tão enraizado que seja muito difícil mudá-lo.
Nessa situação, é importante a compreensão de familiares, amigos e profissionais de saúde para conviver com o problema da melhor maneira possível. Fale de como gostaria que elas se comportassem se tiver um ataque na sua presença. Muitas pessoas conseguem trabalhar e ter uma vida social apesar dos ataques de queda frequentes.