Orientações para pacientes e familiares

 As informações destinadas a pacientes e seus familiares foram traduzidas do site www.neurosymptoms.org por Bruna Bartorelli mediante autorização de seu organizador, Professor Jon Stone, neurologista especialista em transtornos neurológicos funcionais da Universidade de Edimburgo, Escócia.

O que são transtornos funcionais do movimento?

Um transtorno funcional do movimento designa um movimento ou posicionamento de parte do corpo anormal devido ao funcionamento inadequado do sistema nervoso (mas não por causa de um transtorno neurológico orgânico subjacente).

Uma variedade de problemas de marcha pode ocorrer como parte de um distúrbio funcional. Tal como acontece com todos os distúrbios funcionais, eles não ocorrem propositalmente. O movimento e a marcha são involuntários.

Em 2016, Miranda Licence, de Queensland, na Austrália, fez um curta-metragem descrevendo a sua experiência com um transtorno funcional do movimento de seu tio Jeff License, da ABC Open. Jeff e Miranda autorizaram que a sua história fosse compartilhada aqui.

Esse filme diz muito sobre como é ter um transtorno funcional do movimento e como o tratamento pode ajudar. 

Arrastar a perna com déficit motor funcional

Um dos transtornos funcionais do movimento mais comuns é a marcha de “arrasto”, visto em pacientes com fraqueza motora funcional de uma perna. Veja mais sobre déficit motor funcional das pernas aqui.

Pessoas com esse tipo de fraqueza na perna sentem que ela se arrasta no chão. O tornozelo muitas vezes fica virado para dentro ou para fora, como nas fotos acima. Algumas pessoas sentem que o seu pé está preso no chão, quase como se fosse um ímã.

Quedas repentinas por conta do joelho

Normalmente, isso também está associado à fraqueza funcional em uma ou nas duas pernas. Às vezes, se ambas se dobram ao mesmo tempo, isso leva a uma queda súbita, embora seja importante reconhecer que pode haver outras causas, como problemas no joelho.

Marcha lenta (andar sobre o gelo)

Este é um andar geralmente instável, quando a pessoa dá pequenos passos, quase como se estivesse “andando no gelo”. As pernas são bastante rígidas, e os pés ficam afastados. A razão pela qual as pessoas adquirem o hábito de andar assim é muitas vezes porque já sofreram uma queda e ficam preocupadas em cair novamente.

Marcha cambaleante 

Este é um tipo de marcha em que a pessoa balança de um lado para o outro, especialmente na parte superior do corpo, e as pernas tendem a corrigir os movimentos. A pessoa parece que vai cair, mas curiosamente isso raramente acontece.

Marcha hipercinética

Os transtornos funcionais do movimento podem, às vezes, causar movimentos excessivamente dramáticos dos braços, tronco ou perna. Algumas pessoas realizam esses movimentos especialmente quando andam.

Marcha agachada 

Esta é uma forma rara de transtorno funcional do movimento, em que a pessoa parece estar agachada. Isso geralmente é associado ao medo de cair.

Outro problema é a chamada astasia. Nela, a pessoa tem dificuldade em ficar parada no mesmo lugar, mas pode andar normalmente. Isso pode ser diagnosticado se as alterações desaparecem quando a pessoa está distraída (por exemplo, jogando um jogo no celular ou tentando adivinhar alguns números escritos nas costas dela), característica conhecida como distratibilidade, comum em outros transtornos funcionais.

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico de um transtorno funcional do movimento geralmente é feito por um neurologista. Pode ser um diagnóstico complexo, porque requer conhecimento especializado da ampla variedade de perturbações do movimento devidas a transtornos neurológicos, muitas das quais são incomuns ou mesmo bizarras. Até os neurologistas devem ter um cuidado especial ao fazer o diagnóstico. Sabemos, através de estudos, que os transtornos funcionais do movimento são mais comumente diagnosticados como funcional do que outros tipos de transtornos funcionais.

Recursos que ajudam no diagnóstico incluem:

1. Evidência de sinais positivos de tremor funcional ou fraqueza funcional do membro no exame físico

2. Movimentos frequentes e uma marcha que não é econômica (ou seja, em que se despende mais energia do que normalmente)

3. Caminhar melhora quando se anda de costas

4. Caminhar melhora ao mudar o ritmo ou a velocidade da marcha

5. Caminhar melhora quando se ouve música

6. Problemas em se equilibrar em pé melhoram quando a pessoa é solicitada a realizar outra tarefa, como tentar adivinhar números escritos nas costas dela ou jogar um jogo no celular.

Tratamento

Fazer fisioterapia com alguém que conheça os transtornos neurológicos funcionais é a parte mais importante do tratamento.

Algumas das coisas que são capazes de ajudar podem parecer um tanto estranhas quando lidas, mas todas elas são projetadas para ajudar o cérebro a recuperar o movimento “automático” numa situação em que o padrão normal de movimento foi “corrompido”.

1. Tente cantar uma música enquanto anda. Isso te ajuda a caminhar melhor?

2. Experimente andar de costas se tiver dificuldade em caminhar. Andar para trás é um “programa” diferente para o cérebro, e você poderá se surpreender ao descobrir que é mais fácil do que andar para frente.

3. Corra. Para pacientes que são capazes fisicamente, às vezes uma ligeira corrida facilita o movimento. Isso é um pouco parecido com alguém que tenha uma gagueira e/ou dificuldade em falar, mas que é capaz de cantar normalmente.

4. Se estiver tentando sair para andar e não consegue, experimente mudar o seu peso de um lado para o outro durante alguns segundos antes de seguir em frente.

Marie, uma paciente da República Tcheca, compartilhou este vídeo da sua marcha, que é do tipo “pequeno passo, pernas duras” (número 3 na lista acima). A história completa pode ser lida aqui.