Transtornos dissociativos

Antonio Asciutti

Resumo

            A dissociação é um fenômeno muito comum definido como a perda da continuidade do eu. Ela se manifesta com a presença de múltiplas personalidades, perda de memórias centrais na vida da pessoa ou uma sensação de estranhamento quanto ao mundo ou a si próprio. Nem sempre os fenômenos dissociativos são transtornos mentais, mas quando geram sofrimento ou prejuízo o tratamento pode promover ganho de qualidade de vida. O principal pilar do tratamento é a psicoterapia.

 

Artigo

            A dissociação é um fenômeno neuropsiquiátrico prevalente, ocorrendo entre 10 e 46% da população. Define-se dissociação como uma ruptura da continuidade do eu, ou seja, uma descontinuidade de uma ou mais funções psíquicas: memória, consciência, identidade, emoção, percepção, apresentação corporal, controle motor ou comportamento. De maneira geral, quando ocorre um fenômeno dissociativo, a pessoa acometida passa a ser incapaz de acessar informações psíquicas previamente disponíveis ou de controlar suas funções mentais.

            Pessoas com ou sem transtorno mental podem apresentar sintomas dissociativos durante a vida. Nem sempre os sintomas causam sofrimento ou prejuízo na vida pessoal, e apenas quando causam podem ser considerados um transtorno mental.

            Transtornos dissociativos não tem uma causa única, sendo resultado de diversos fatores de risco interagindo paralelamente. O risco é maior entre pessoas com transtorno mental, uso de substâncias, epilepsia, traumatismo craniano, alterações genéticas, histórico de maus tratos, morte de entes próximos, conflitos, desastres, tortura e experiências traumáticas. Historicamente, associou-se a presença de transtornos dissociativos com a vivência de experiências traumáticas, principalmente na infância. Segundo o modelo formulado, crianças com capacidade genética de dissociar reagem a traumas atingindo um estado de consciência alternativo, uma vivência de "não-eu". Esse estado é a dissociação, que protege o jovem de viver emocionalmente a violência ou abuso. Após repetidos traumas, instala-se o transtorno dissociativo de forma consistente nessas pessoas com predisposição.

            Pesquisas neurobiológicas encontram, entre pessoas com fenômenos dissociativos, menor perfusão sanguínea no córtex frontal, maior ativação do lobo temporal esquerdo, menor volume do hipocampo e amídala, e desregulações no circuito límbico.

            Existem no DSM-5 três transtornos dissociativos: o transtorno dissociativo de identidade (TDI), a amnésia dissociativa (AD) e o transtorno de despersonalização/desrealização (TDD). O TDI é a presença de duas ou mais personalidades no mesmo indivíduo. Retratado amplamente em filmes e livros, o transtorno caracteriza-se por diferentes estados de eu, com comportamentos, afetos e memórias distintos. Cada personalidade apresenta seu padrão de experenciar o mundo. Normalmente, uma personalidade não se recorda da outra. A AD é uma incapacidade de recordar dados biográficos, como nome, idade, profissão, familiares etc. A pessoa com o transtorno pode se esquecer de alguns dados de um período ou até de todas as vivências de sua vida. O esquecimento pode ser permanente ou transitório. O TDD é marcado pela presença de desrealização (uma sensação de que o mundo está estranho) ou de despersonalização (um irreconhecimento ou estranhamento de si próprio).

            O tratamento dos transtornos dissociativos é realizado com psicoterapia e abordagem de questões psicossociais. Não há medicamentos que promovam alívio dos sintomas ou ganho de qualidade de vida de forma sustentada. Os medicamentos são utilizados para tratar outras condições psiquiátricas que eventualmente também estejam presentes. O objetivo da psicoterapia é promover um reconhecimento de emoções e da própria identidade, e fornecer crítica sobre os fatores internos e externos envolvidos na dissociação.

 

Referências

1. Rajkumar RP. The molecular genetics of dissociative symptomatology: a transdiagnostic literatura review. 2022.

2. Dorahy MJ, Brand BL, Sar V et al. Dissociative identity disorder: an empirical overview. 2014.

3. Associação Americana de Psiquiatria. Manual diagnóstico e estatísticos de transtornos mentais, 5a edição (DSM-5). Nascimento MIC, Machado PH, Garcez RM et al. 2014.

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