Trauma e os quadros somáticos
Mario Otero
Muitas pessoas (até mesmo profissionais da área de saúde mental) costumam associar psicanálise ao tratamento do trauma. Isso se deve ao fato de que a primeira grande teoria de Freud acerca das neuroses realmente tinha o trauma como elemento central.
Contudo, à medida em que começou a compreender melhor o funcionamento do inconsciente e o desenvolvimento da sexualidade infantil, Freud passou a ver na fantasia e na realidade psíquica os componentes que definem a forma como a pessoa se relaciona com o mundo e, em certos casos, desenvolve sintomas. Os sintomas neuróticos passam a ser vistos, então, como expressão simbólica das dificuldades que a pessoa tem com o próprio desejo, o desejo do outro, a própria agressividade e a ambivalência nos vínculos etc. É como se o sintoma fosse uma construção inconsciente involuntária que serve para dar expressão a conflitos vividos nas relações.
Assim, a teoria freudiana desloca a ênfase no trauma enquanto acontecimento real para o papel das fantasias e dos conflitos na estruturação do psiquismo e na produção dos sintomas (aqueles do tipo neurótico). Conflitos psíquicos podem, por si só, levarem a sofrimento, podendo ou não se apoiarem em acontecimentos reais.
De todo modo, o trauma nunca saiu da teoria freudiana. Há conflitos e sintomas neuróticos (em que o papel da fantasia inconsciente é preponderante) e há sofrimentos advindos de situações reais de desamparo, violência ou muita dor — esses últimos podem configurar um trauma.
Podemos pensar o trauma como um acontecimento real tão intenso que o psiquismo (isto é, o aparelho mental, a mente) não possui recursos suficientes para fazer frente a essa experiência ruim. As defesas normalmente utilizadas para dar conta das situações dolorosas não são aqui efetivas. Como efeito, os registros de memória relacionados ao acontecimento ruim permanecem não significados e não elaborados, como se formassem um “buraco” no psiquismo. Não é possível, nesse processo, construir um sintoma neurótico que seja expressão simbólica do sofrimento vivido. No caso do trauma, é como se o psiquismo ficasse paralisado ou desabado.
Por não serem pensadas em palavras e elaboradas, é comum que experiências traumáticas resultem em sintomas no corpo (como fraquezas, dores, perda de controle do corpo, amnésias, entre outros). Esses sintomas podem parecer com sintomas neuróticos conversivos, mas não o são — são, de fato, resultantes de intensas experiências reais.
É importante notar, contudo, que um trauma é definido pelos efeitos causados no psiquismo e não pela natureza do fato em si. Imaginemos, por exemplo, o caso de um desastre de avião. Alguns dos passageiros sobreviventes podem ficar traumatizados, em choque, relembrando a cena traumática com pavor e incapazes de retomar a vida após algum tempo. Esses se traumatizaram. Outros passageiros, por outro lado, podem apenas ter o registro de uma experiência muito ruim, mas podem ser capazes de a situar no passado e lidar com ela em alguma medida. Esses últimos não desenvolveram, então, um trauma.
No Ambulatório de Transtornos Somáticos e em nossos consultórios, temos pacientes que desenvolvem sintomas no corpo não desencadeados por fatos ruins (nesses casos, fatores emocionais e subjetivos produziram um conflito inconsciente que se expressa no sintoma). Já outros de nossos pacientes passaram por situações reais de violência (física, sexual, subjetiva), às vezes na infância, às vezes na idade adulta, que de tão insuportáveis não puderam ser elaborados. Esses trazem em sintomas corporais a marca dos traumas.
O tratamento analítico de pessoas que passaram por um trauma compreende oferecer um espaço de acolhimento onde a experiência traumática possa ser, aos pouquinhos, retomada, compartilhada, reconhecida e significada. As palavras, tanto as do paciente quanto as do analista, têm aqui um papel importante — são elas que dão contorno ao “buraco” ocasionado pelo trauma e o tornam mais manejável. Elas também permitem ao paciente entender o trauma no contexto maior de sua história e encontrar formas de seguir em frente.