Tratamentos

 As informações destinadas a pacientes e seus familiares foram traduzidas do site www.neurosymptoms.org por Bruna Bartorelli mediante autorização de seu organizador, Professor Jon Stone, neurologista especialista em transtornos neurológicos funcionais da Universidade de Edimburgo, Escócia.

Terapia ocupacional

“Obrigado a Sue Humblestone e Clare Nicholson, terapeutas ocupacionais do Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia, Londres, por contribuírem com esta página para o site. Eles explicam como usam a terapia ocupacional no tratamento multidisciplinar de pacientes com distúrbios neurológicos funcionais.” ― Jon Stone

Os terapeutas ocupacionais se preocupam com o modo como as pessoas funcionam nas suas atividades de vida diária e, por isso, estão particularmente interessados no impacto dos sintomas funcionais na capacidade de cada pessoa para se manter ativa e prosseguir a sua vida. Isso é possível observando o dia a dia de cada um e através da análise detalhada de cada uma delas. Ao fazer isso, identificam-se quais os problemas que cada paciente enfrenta para concluir uma tarefa, tarefas essas que podem ser tão simples como tomar banho, se vestir, se alimentar ou mesmo voltar ao trabalho.

Definição de metas e objetivos

A partir do ponto de onde está agora para onde pretende chegar, muitas vezes a distância pode parecer avassaladora, mas o seu terapeuta pode te ajudar nessa jornada, auxiliando a definir objetivos realistas, usando o esquema abaixo:

• Específicos

• Quantificáveis

• Alcançáveis

• Realistas

• Com data marcada

Usando esse esquema, a frase “eu quero ser capaz de fazer o meu próprio café da manhã” torna-se “eu vou ser capaz de fazer o meu próprio café da manhã em pé e levá-lo para a mesa da cozinha usando apenas uma muleta dentro de quatro semanas”.

Geralmente, é útil incluir os seus colegas ou familiares mais próximos (e outros profissionais de saúde envolvidos nos seus cuidados, se aplicável) nesse processo de definição de objetivos e metas, para que eles entendam o esforço que está sendo feito.

Definição de objetivo

O estabelecimento de objetivos é uma parte importante da reabilitação para o transtorno neurológico funcional, e os terapeutas ocupacionais podem ajudar pacientes a estabelecer objetivos realistas e alcançáveis. Objetivos cuidadosamente hierarquizados podem ajudar o paciente a criar confiança nas suas próprias capacidades e a progredir em um ritmo mais rápido.  

Exemplo de um formato:

Primeiro passo:

Identifique os seus objetivos e escreva-os. Pode ser bom pensar em objetivos de curto e longo prazo, por exemplo, objetivos semanais, 1, 3, 6, 9 e 12 meses. Outros preferem estabelecer objetivos com prazos flexíveis – experimente-o e veja o que funciona melhor para você!

Segundo passo:

Descreva os passos para alcançar cada um dos seus objetivos. Esses passos devem ser realistas e abordados de forma gradual, ou seja, não comece com algo muito grande, pois objetivos inatingíveis podem levar à frustração, causar ansiedade e abalar a sua confiança.

Terceiro passo:

Coloque os objetivos num lugar onde você os possa consultar regularmente, por exemplo, na geladeira ou num caderno que você usa com frequência.

Quarto passo:

Fale sobre os seus objetivos com as pessoas importantes da sua vida para que elas possam te apoiar.

Quinto passo:

Risque os seus objetivos cada vez que sentir que os atingiu e depois avance.

Mantenha os objetivos alcançados como um ponto de referência para o seu progresso. A confiança é fundamental! Não avance até ter construído a sua confiança com cada passo. Essa abordagem gradual pode ser usada para qualquer objetivo que você estabelecer para si mesmo.

Uma sessão de terapia ocupacional na cozinha

Equipamentos e auxiliares

Na maioria dos casos, a terapia ocupacional para pessoas com sintomas neurológicos funcionais que tentam fazer a reabilitação tende a não usar equipamentos e auxiliares (abordagem compensatória) para que atinjam os seus objetivos. Isso porque o uso de abordagens compensatórias ajuda as pessoas a concluírem uma tarefa apesar das dificuldades, mas nem sempre ajuda na reabilitação dessas próprias dificuldades.

O uso de equipamentos como talas, muletas, etc. pode causar:

• Novas causas para a dor: Muitas vezes, os pacientes que usam muletas para andar desenvolvem dor crônica nos ombros, pulsos etc., que pode levar ao uso de cadeiras de rodas

• Pode causar uma diminuição nos níveis de condicionamento físico: Isso pode levar a uma exacerbação nos níveis de fadiga que, por sua vez, reduz o envolvimento nas atividades diárias (conforme descrito na seção Fisioterapia)

• Pode chamar a atenção para uma área e aumentar o autofoco, levando à exacerbação dos sintomas

Nos pacientes que não tentam ou não conseguem melhorar com a reabilitação, equipamentos como cadeiras de rodas podem melhorar a autonomia, mas é importante entender que eles também tornam a recuperação mais difícil.

Cuidadores

Apesar de os cuidadores poderem ser essenciais em alguns casos para te apoiar em sua casa, tê-los por um tempo prolongado pode:

• Reduzir a confiança nas suas próprias capacidades

• Diminuir a sua independência

• Se a sua família está cuidando de você, isso pode afetar as relações familiares

• Quando tenta e se envolve numa atividade de forma independente após um período de dependência, sua capacidade de planejamento e de execução pode ter diminuído e, portanto, isso te trará dificuldades. As coisas parecerão mais complicadas, o que poderá impactar e afetar a sua motivação para fazer novamente essas mesmas atividades numa próxima vez

Desenvolver independência através da reabilitação

Os terapeutas ocupacionais encorajam as pessoas a trabalharem nas suas ocupações diárias segundo um padrão de movimento normal, com dependência reduzida de equipamentos e de auxílio  de outros. Isso promove a independência, bem como oportunidades de reabilitação e recuperação. Dessa forma, as pessoas são encorajadas a participarem de todas as atividades diárias como uma forma de reabilitação, uma vez que a participação favorece a construção de força e resistência funcionais.

Se você tem tido dificuldades para passar o dia todo em casa, o envolvimento em atividades de lazer pode ser difícil. Esses profissionais podem te ajudar a identificar os seus hobbies e interesses para voltar a se envolver nesse tipo de atividades. Aprender a suavizar os dias bons e os dias não tão bons

Provavelmente, você notará que algumas das abordagens da terapia ocupacional podem se sobrepor às da fisioterapia e psicologia, particularmente no que diz respeito ao uso de estratégias de gestão da fadiga e dor. Essa é uma característica fundamental do tratamento dos pacientes com sintomas funcionais, pois visa quebrar o ciclo vicioso que muitos pacientes desenvolvem, em que nos seus “dias bons” tendem a fazer demasiado, o que inevitavelmente leva a “dias ruins”, abandonando as atividades, aumentando a frustração e piorando o humor. Clique nos links abaixo para obter alguns planos de terapia ocupacional para transtornos motores funcionais (ou seja, aqueles que causam dificuldade de mobilidade ou movimento).

Psicologia

O trabalho do terapeuta ocupacional junto com os psicólogos e as terapias cognitivo-comportamentais é o de te ajudar a identificar fontes de ansiedade e estresse e a desenvolver estratégias de como lidar com a situação. As sessões podem incluir:

• Ajudar a identificar como você se sente quando está estressado ou ansioso através de uma melhor percepção de si mesmo (por exemplo, suor, aumento da frequência cardíaca).

• Identificar as situações/ atividades estressantes.

• Explorar técnicas de relaxamento e controle de estresse.

• Expor gradualmente a situações estressantes num ambiente controlado, por exemplo, pelo uso de transporte público usando técnicas de controle de ansiedade.

• Ganhar um equilíbrio saudável dentro da sua vida diária para lidar com o estresse.

• Recuperar a sua identidade ocupacional: resgatar o senso  de “eu posso”, rompendo com as causas da evitação e encorajando assumir riscos positivos.

Ajudar pessoas com transtorno neurológico funcional/FND a recuperar sua identidade ocupacional, resgatando a noção e “eu posso”, esclarecendo o porquê de evitar determinadas atividades e incentivando os riscos positivos.

Administrar papéis vocacionais (estudo, trabalho pago ou voluntário)

Manter o emprego/estudos ou voltar a eles  após um período de doença pode ser muito difícil. Os colegas de trabalho tendem a ter uma compreensão limitada dos seus problemas e, de fato, alguns dos seus sintomas podem estar “ocultos”, como, por exemplo, a fadiga, e são difíceis de explicar. Os terapeutas ocupacionais são bem treinados  para te ajudar com essas questões, podendo fazer isso através de:

• Identificação das suas principais dificuldades

• Resolução desses problemas

• Estabelecimento de ligação com a entidade empregadora

• Conselhos sobre ajustes razoáveis, por exemplo, em horários de trabalho alternativos e na comunicação assertiva no seu local de trabalho

• Preparação para voltar ao trabalho

• Implementação de mudanças ambientais